Não lembro bem o ano. Talvez 1990 ou 1989. A Universidade de Brasília ainda vivia um clima acadêmico de camaradagem e trocas e os recém anistiados chegavam. Alguns deles ficaram, outros tiveram passagens rápidas, algumas meteóricas, pelos departamentos. Em início de carreira, eu estava entusiasmada com toda aquela movimentação de gentes e de idéias. Foi assim que, num certo dia, conversando com o prof. Fábio Lucas, recém chegado com a anistia para uma brevíssima estada, fui surpreendida com uma informação. Ele me perguntava se eu tinha idéia de que um dos melhores dicionários da língua portuguesa era de um modesto professor de Goiás. Não, não tinha idéia. Bem, pois ele assim me afiançou e eu, confiante em uma memória que nunca tive, não anotei o nome do tal professor e muito menos do dicionário. Por mais de dez anos procurei descobrir de quem ele era. Perguntava a colegas, nos sebos, nas livrarias. Mas era inútil. Perdera completamente o contato com Fábio Lucas e, sem ele, nada das referências necessárias.
O tal dicionário tornara-se um mistério até que, em 2002, tive uma grande surpresa.
Conheci uma colega de trabalho na Universidade que me falou de sua luta para republicar o dicionário de seu avô: um objeto de desejo e de disputa entre aficionados pela língua portuguesa. Me mostrou um velho exemplar, bastante amarelado, que havia recebido de seu pai. E me contou, com muito entusiasmo, a história daquele homem. Muito cedo, filho de uma viúva, Francisco Ferreira dos Santos de Azevedo, foi estudar em Ouro Preto. Tornara-se agrimensor e retornara a Goiás Velho, cidade de seu antepassado bandeirante. Casou-se, lecionou matemática, física, português, latim, francês, inglês, geografia. Pesquisou, se embrenhou pelos sertões e escreveu muito. Daltônico e distraído, não saia de casa sem passar pelo crivo da esposa: uma vez vestira apenas paletó, chapéu e gravata. O resto da indumentária continuava no armário. Curioso e sistemático, as pessoas costumavam acertar seus relógios pela rotina do professor Ferreira. Foi assim, cheio de filhos e alunos, no centro do país que Ferreira de Azevedo escreveu vários estudos, entre eles seu precioso Dicionário Analógico (idéias afins).
Não demorei a descobrir que o avô de quem falava e o exemplar amarelado que ela me mostrava era o tal dicionário que, às cegas, procurava há anos. Pensei ter resolvido o problema e, com as referências anotadas na bolsa, fui à cata da preciosidade. Mas nada, os aficionados haviam se apossado dos raros exemplares existentes no mercado. Não tive saída: tive que esperar por mais oito anos para que o empenho da família de Francisco Ferreira dos Santos de Azevedo tivesse sucesso e uma nova edição aparecesse. Agora posso folhear o Dicionário Analógico, feliz em saber que a curiosidade e a inteligência do Professor não eram modestas, mas que um livre pensador pôde nos presentear com esta maravilha.
profa. Elizabeth Cancelli
Historiadora- USP
profa. Elizabeth Cancelli
Historiadora- USP
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