terça-feira, 6 de julho de 2010

"Texto escrito em 1987 por João Ferreria de Azevedo (1921-1998), por ocasião do re-lançamento da obra Anuário Histórico-Geográfico do Estado de Goyaz, de autoria de seu pai, Francisco Ferreira dos Santos Azevedo

PROFESSOR FERREIRA: O PENSADOR SOLITÁRIO


Naquela madrugada morna, ainda muito cedo para a missa das cinco, ela caminhava só, de volta para sua casa. Acabara de se despedir de seu único filho que partira em busca de mais saber. Em seu íntimo se desenrolava uma luta entre os sentimentos de uma mãe extremosa e o raciocínio de uma mente de pouca instrução, mas de visão incomum; não tinha sido ela mesma que engendrara tudo aquilo que acabaria naquela prematura separação?
Já do nascimento do seu filho, tomara a decisão de mandá-lo estudar fora; sua cidade, seu vale, eram muito pequenos, apenas parte de um mundo bem maior. Os conhecimentos que ali chegavam seriam, naturalmente, migalhas de um saber bem mais amplo. Seu filho precisava tomar contato com aquele mundo, beber nas fontes do saber.
Os parentes e conhecidos foram sempre contra sua intenção: ela não conhecia o mundo lá fora; aquele jovem franzino, de apenas dezesseis anos, não teria condições de lá sobreviver.
Agora de nada valia lembrar todas essas coisas. Ele acabara de seguir o seu destino.
Pela segunda vez ela se sentia só. A primeira foi quando seu marido faleceu, deixando-a viúva, após seis meses de casada. Naquela ocasião ela ainda tinha a companhia daquele filho no ventre. E agora? Não, também agora ela não estava totalmente só; Nossa Senhora, a Virgem Santíssima, a quem ela entregara o filho, seria a sua companheira de todas as horas.
Tudo naquela mulher era fé e determinação.
Seu filho tinha consciência disso. Pensava nestas coisas enquanto seguia o caminho para cumprir o desejo de sua mãe e que tinha se transformado também no seu próprio.
A tropa acabara de transpor a Serra Dourada, até então o mais belo componente da paisagem do seu vale.
Ele sabia que, somente a cavalo, teria que percorrer uma distância correspondente a um mês de viagem; não era muito. Já pressentia que aquela seria apenas uma pequena etapa de suas longas andanças em busca do saber e acabaria por ter duração de toda uma vida.
Caminhada realmente muito árdua.
Inicialmente, as saudades de sua mãe e de sua cidade o machucaram bastante. Além disso, os trabalhos de madrugada, nos correios, roubaram-lhe preciosas horas de estudo e de sono; quantas vezes teve que manter os pés dentro de uma bacia de água fria para vencer o sono e assim conseguir continuar estudando até altas horas da noite?
Entretanto, mais do que essas coisas, a caminhada se tornou realmente árdua porque nela ele não buscava simplesmente conhecimentos profissionais; buscava, isto sim, conhecer a razão das coisas. Dos ensinamentos que lhe eram ministrados ficavam sempre dúvidas e indagações que as exigências de um currículo a ser cumprido não davam margem para investigações mais aprofundadas. Isto deve tê-lo angustiado bastante. Daí o seu retorno à terra natal, logo após a conclusão do curso de agrimensura. Trazia consigo a convicção de que, na solidão de seu vale, encontraria as condições necessárias para meditar sobre aquelas dúvidas. Sentia a necessidade de realizar um trabalho intelectual mais livre de concepções consagradas; sua mente não conseguia se ater ao raciocínio essencialmente analítico-fragmentário; tendia sempre para o global, para a composição e não para a decomposição.
Já nos seus estudos iniciais de álgebra, havia reagido contra a concepção de Descartes, que considerava os números separados em dois grupos - os positivos e os negativos - e onde o zero se constituía em apenas um marco divisório e origem na contagem daqueles números. Para ele, todos os números positivos, negativos e o zero, compunham uma só seqüência contínua que crescia do infinito negativo, passando pelo zero, indo até ao infinito positivo.
Nesse sentido veio a publicar importante trabalho de filosofia da matemática, as “Considerações Gerais sobre as Quantidades Negativas”, onde demonstrou cabalmente que a sua concepção era mais racional e adequada que a cartesiana.
Também em relação às discussões que se travavam sobre a existência do ano zero no calendário da era cristã, adotou posição contrária à dominante e que, inclusive, era liderada pela inteligência brilhante de Camilo Flamarion. A propósito, escreveu o artigo “Chronologia” onde, através de argumentação lógica, provou que aquele ano realmente existiu. Esse artigo mereceu o referendo da incontestável autoridade no assunto, o astrônomo Henrique Morize, Diretor do Observatório Nacional.
Como no domínio dos números, no campo da lingüística, também sua visão fugiu ao normal, ao convencional. Entendia que as palavras tinham vínculos não apenas segundo uma sinonímia, isto é, num sentido estreito, particular, mas sim de forma mais ampla, ou seja, de acordo com idéias básicas, com grupos de idéias afins.
Assim entendendo, passou a viver, por mais de quinze anos, no mundo das palavras, procurando conhecê-las melhor, conhecer suas origens e seus diferentes graus de parentesco. Dessa convivência resultou uma obra monumental da lexicografia – o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa (Idéias Afins).
Como não podia deixar de ser, foi também com esse espírito filosófico que cumpriu a missão de mestre, lecionando matemática, português, latim, francês, inglês, geografia, cosmografia, etc... Jamais conseguiu em suas aulas, ater-se exclusivamente ao assunto programado; fazia sempre, com seus alunos, agradáveis passeios pelos campos do conhecimento humano.
Além dessas atividades essencialmente intelectuais, teve que desempenhar as funções de agrimensor. Também aqui não ficou preso aos estreitos limites dos trabalhos de medição de terra. À medida que percorria o Estado, colhia dados sobre suas características geográficas. Isto lhe permitiu elaborar a “Carta do Estado de Goyaz”, o primeiro documento dessa natureza de que se tem notícia. Entretanto, no seu dizer, “Goyaz ressentia-se da falta de um livro que descrevesse seu ubérrimo território, seus rios colossais, suas montanhas...”
Sem dúvida, essa empreitada teria que ser sua e, seria talvez para ele, uma das mais agradáveis, pois se tratava de compor o retrato de um dos grandes amores de sua vida: sua terra natal. Este retrato é o Anuário Histórico, Geográphico e Descriptivo do Estado de Goyaz, para 1910 que agora é reeditado. Por razões que se desconhece não foram publicados outros, referentes aos anos subseqüentes. No entanto, manuscritos por ele deixados, abordando classificações científicas de diferentes espécies da fauna e da flora, encontrados no Estado, dão margem a que se conclua que houve, de sua parte, o empenho de prosseguir nesse trabalho, com a ampliação do conteúdo.
Tudo isso é o pouco do muito que se tem para dizer sobre esse pensador que viu sempre além do convencional, que pensou livre do cartesianismo dominante e que, lamentavelmente naquela madrugada morna de quinze de novembro de 42, na hora da missa das cinco, partiu novamente, dessa vez, porém, para viver no todo que ele sempre buscou.

João Ferreira de Azevedo

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