Dicionário Analógico da Língua Portuguesa ganha nova edição, com prefácio de Chico Buarque de Holanda
Conceição Freitas
Publicação: 26/07/2010 08:34
Ninguém que tenha em mão o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa poderá dizer que está sem palavras. O falante e/ou escrevente não vai mais se sentir tentando capturar um grão de areia no ar, mas só até aprender a consultar a obra de ideias afins relançada pela editora Lexikon 60 anos depois da primeira edição. Esse gênero de dicionário não oferece o sentido da palavra, função que cabe ao dicionário de significados (Houaiss, Aurélio, Caldas Aulete). A tarefa dele é socorrer o usuário quando ele quer dizer alguma coisa, e a palavra, fugidia, lhe escapa. Ou quando a que encontra não é exatamente a que procura; ou quando quer dizer de outro modo aquilo que já foi dito; ou quando procura uma imagem diferente para não cair no clichê, ou quando, como faz Chico Buarque de Holanda, quer aprender palavras bonitas para embasbacar as moças e esmagar os rivais.
O filho de Sergio Buarque de Holanda é a estrela máxima que apresenta o Dicionário, com um texto delicioso, mas, para quem vive no Distrito Federal, o dicionário tem um interesse extra: o autor, Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, é goiano da Cidade de Goiás. E, mais que isso, é um personagem e tanto pelos seus inacreditáveis feitos numa capital escondida entre serras e por seu temperamento distraído que fez dele personagem de causos que, mais de 50 anos depois de sua morte, estão sendo reunidos em livro, a ser lançado pelo biblioteconomista José Rincon Ferreira, neto do autor, a partir de anotações de José Sisenando Jaime. História como aquela em que ele, como de hábito, entrou na barbearia e esperou muito tempo para ser atendido até que uma moça bonita se aproximou e ele informou que estava esperando o barbeiro. Soube então que a casa não abrigava mais tesouras, navalhas e espumas de barbear. Era um prostíbulo.
O professor Ferreira ou o professor Ferreirão, como era conhecido, viveu toda a vida num casarão colonial do século 19 na cidade de Goiás. Quando estava grávida do primeiro filho, a mãe dele ficou viúva e teve de criar o garoto fazendo e vendendo doces. Dona Ritoca parecia ter uma noção do mundo para além dos limites da Serra Dourada. Mandou o filho de 17 anos estudar em Ouro Preto. Francisco voltou formado em agronomia, mas os interesses do jovem recém-formado eram muito mais amplos. "Ele era um homem do renascimento, um sujeito extraordinário para seu tempo e para o nosso tempo", diz a neta Ana Maria Vicentini, psicanalista que já morou em Brasília e hoje vive em São Paulo.
Anuário Histórico
Nos seus 77 anos vividos, Ferreirão foi engenheiro do serviço público, professor do Liceu de Goiás, jornalista, gramático, cronista, ensaísta, autor de várias obras, entre as quais o Anuário Histórico, Geográfico e Descritivo do Estado e do Dicionário Analógico, que só foi publicado em 1950, oito anos depois de sua morte, graças ao interesse de um filólogo, o carioca Antenor Nascentes (1886/1972) que obteve da família as fichas com as anotações de Ferreira e providenciou a edição. Quem possuía e ainda possui a primeira edição do Dicionário Analógico era dono de uma obra rara e esgotada. A segunda edição só pode ser impressa depois de uma longa e vagarosa peleja judicial entre os herdeiros do autor e a editora Coordenada, de Brasília, que detinha os direitos de publicação.
Superada essa fase, a Lexicon Editora Digital, especializada em dicionários, comprou o direito de publicação da obra. Foram dois anos destinados a retirar perto de 20% das palavras ou termos já não utilizados pelos falantes da língua portuguesa, em especial alguns galicismos. E a inclusão de novos léxicos. A edição ficou com 764 páginas. Agora, a editora prepara o lançamento de uma versão on-line, para ser consultada gratuitamente e com permissão para colaboração de leitores. (Prática que a editora já adota no Aulete Digital).
Responsável pela atualização do dicionário e editor de obras de referências da Lexicon, Paulo Geiger explica que o uso de dicionário analógico é uma tradição das línguas anglo-saxônicas. Para fabricar o seu dicionário, o professor Ferreira usou como base a primeira obra do gênero publicada no Brasil, em 1936, do padre Carlos Spitzer. Mas a inspiração veio dos thesaurus (dicionário de ideias afins) de língua inglesa, modelo criado pelo lexicógrafo britânico Peter Mark Roget (1779/1869). A primeira tiragem do Dicionário Analógico sumiu das prateleiras em uma semana. "A segunda está no mesmo caminho", diz Paulo Geiger. Já foram vendidos 10 mil exemplares, número razoável em se tratando de dicionário.
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